Primeiro cinema 100% inclusivo do Brasil, em Curitiba, se torna referência.

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O que é um momento de lazer cotidiano, para a maioria dos brasileiros, se torna um desafio para pessoas com deficiência. O cinema, conhecido como o entretenimento mais inclusivo do mundo, ainda engatinha ao garantir a inclusão verdadeira, no entanto isso vem mudando.

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Graças à uma parceria entre a rede de cinemas Cineplus e a fabricante de equipamentos para tradução simultânea Riole, surgiu em Curitiba o primeiro cinema 100% inclusivo do Brasil (e um dos primeiros do mundo).

Os cinemas vem, à passos lentos, se adaptando à instrução normativa 128 da Ancine (de 13 de setembro de 2016), mas em Curitiba, a preocupação com os clientes e um projeto inovador transformou a experiência de deficientes visuais e auditivos, que hoje podem ter acesso à qualquer filme em exibição, com inclusão garantida.

O interesse surgiu dos administradores do cinema Cineplus Shopping Jardim das Américas, que procuravam um equipamento que não só atendesse às necessidades básica dos deficientes, mas que permitisse uma experiência completa.

“Sentimos a necessidade de trazer uma estrutura que permitisse que qualquer pessoa assistisse aos filmes, da forma que mais agradasse. Por isso tornamos o cinema acessível e sempre estamos pensando em como melhorar”, destacou o diretor geral da Rede Cineplus, Milton Alexandre Durski.

Pensando na acessibilidade, a sala TSX, a mais nova do cinema da rede, foi totalmente equipada com um sistema criado pela Rione, empresa brasileira especializada em inclusão. Agora quem tem deficiência visual ou auditiva consegue sim ter a experiência de estar numa sala de cinema com os amigos e curtir o seu filme sem constrangimento.

Essa é a primeira sala do Brasil com todos os equipamentos de acessibilidade. “Nos dá muito orgulho saber que já proporcionamos momentos únicos de diversão e cultura a pessoas que foram ao cinema pela primeira vez. O que nós esperamos é revê-los mais vezes‘, disse a sócia do Cineplus, Marina Pastre.

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Além da tecnologia, o cinema também contratou pessoas com deficiência e treinou colaboradores para atendimento em LIBRAS. “Eles mudaram minha vida, porque antes eu ficava mais longe das pessoas e agora eu tenho acesso a todo mundo. Isso sem contar o salário”, brincou Adão Rodrigues Xavier, deficiente auditivo contratado pela empresa.

Segundo o homem, que tem 62 anos, poder conversar com pessoas mais jovens que têm a mesma deficiência e garantir que ela tenham um momento de lazer é um presente. “O contato com as pessoas me faz muito bem”, destacou Adão, que assistiu pela primeira vez um filme com o equipamento e adorou a experiência. “Mas exige atenção da gente, principalmente para quem não está tão acostumado com libras”, explicou.

O equipamento inclusivo

O acesso à tecnologia é individual e, portanto, deve ser solicitado pelo cliente logo na bilheteria, no momento da compra do ingresso. Para clientes com deficiência visual, existe um fone de ouvido com áudio descrição do filme intercalado com as falas, junto com um aparelho que regula o volume.

Já para deficientes auditivos a estrutura é ainda maior: é fornecida uma pequena tela, que se encaixa ao porta-copos da poltrona. Neste equipamento surge a tradução em LIBRAS e a legenda, isso tudo sem interferir na exibição aos demais espectadores.

Incluindo famílias

Thami Nascimento, de 36 anos, é mãe de duas meninas com deficiência auditiva. Ao tomar conhecimento da novidade correu para experimentar com suas filhas. Ao testar o equipamento usado pelo cinema do Jardim das Américas, Thami se emocionou.

“Achei sensacional, o equipamento me surpreendeu. A interpretação foi bem feita, com uma pessoa fazendo, o que já é um diferencial bem grande, diante de outros aplicativos que não dão uma tradução fiel. Como mãe foi emocionante”.

Uma das filhas, Caroline Hinteregger, de 10 anos, também acompanhou a exibição do filme e aprovou o equipamento. “No caso da minha filha, que usa tecnologia e consegue ouvir um pouco, foi ainda melhor, porque tem o apoio da legenda e da tradução de libras. Isso sem contar a questão de ter um cabo flexível para a tela, porque ajuda bastante ao assistir. Está bem próximo do que seria o ideal, isso é um grande avanço e uma vitória para a comunidade surda”, comentou Thami.

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Tecnologia Brasileira

A novidade do Cineplus só foi possível a partir de uma parceria com a empresa de equipamentos de tradução simultânea Riole. Hoje fixada em Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, a empresa surgiu há quase 40 anos. Pensando em soluções para os mais diferentes públicos, a Riole pode ser vista como um exemplo de inovação tecnológica.

A diretora da empresa, Cristiane Moro, contou à Tribuna que a empresa começou a produzir o equipamento usado no cinema depois que percebeu que havia necessidade. “O próprio mercado nos procurou, pois havia uma lei, mas não existia equipamento para isso. Nós mesmos projetamos, fizemos todas as pesquisas necessárias, e desenvolvemos esse equipamento, que é brasileiro e totalmente feito por nós”.

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Segundo Cristiane, o Brasil é o primeiro país a ter linguagem de sinais no cinema, se tornando exemplo para outros países. “Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda usam somente legenda ou audiodescrição, mas logo logo vão começar a se espelhar no que é feito por aqui”.

No momento da criação do equipamento, a principal preocupação da empresa era com a facilidade não só de uso, mas também de acesso. Isso porque já existia um equipamento, feito por uma grande empresa internacional, que não é bem visto pelos deficientes pelo modo de utilização e também pela forma que a tradução é feita. “A gente acabou fazendo dois equipamentos separados, um para o deficiente visual e outro para os deficientes auditivos, porque as necessidades são diferentes”, comentou Cristiane.

Para facilitar, o equipamento da Riole não tem botões. “Optamos por um aparelho que fosse o mais fácil possível, com menos botão, para entrar na sala e já estar captando o sinal, para que o deficiente não perca tempo e não precise ter muito conhecimento do equipamento para usá-lo”.

Além disso, a própria empresa desenvolveu uma tecnologia de transmissão dos dados para que, de alguma forma, tirasse a preocupação das distribuidoras, como a Disney, com relação ao conteúdo. “Somos a única empresa no mundo a fabricar um sistema com transmissão em infravermelho de áudio e vídeo, com sincronização automática da audiodescrição do filme, legendagem descritiva e em libras. Foi tudo criado para evitar que esse sinal se perdesse no caminho”, explicou Cristiane.

Em Curitiba, além do Cineplus, os cinemas do Espaço Itaú também já receberam a tecnologia. Mas o mais legal é ver o quanto uma empresa curitibana cresceu. “No Brasil, já colocamos o equipamento em muitas regiões: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, Bahia, Brasília, enfim, muitos estados já usam o que foi feito aqui”.

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Produzindo vários tipos de equipamentos de transmissão de áudio sem fio, a Riole não faz só produtos para o cinema. “No Paraná, quase todas as multinacionais usam nossos equipamentos de alguma forma, seja tradução simultânea, com transmissão de áudio para visitas. Mas também estamos desenvolvendo uma forma de tornar adaptado o plenário, em Brasília, e também já estamos montando produtos para exportação, já que muita gente de fora passou a querer o que é feito aqui”.

Cristiane avalia que, para uma empresa totalmente familiar, que foi criada por seu pai, Eloir Moro, e hoje é mantida por ela e seus dois irmãos, as conquistas são um avanço. “Isso tudo, na verdade, faz parte de um sonho que a gente sempre teve, pois sempre soubemos que tínhamos um equipamento de qualidade. É muito gratificante ver o quanto o trabalho do meu pai e agora o nosso tem surtido efeito. No caso da exportação, faz três anos que estamos buscando mercados internacionais, já exportamos, e agora vamos fazer isso com mais força”.

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