[ENTREVISTA] Luci Gonçalves: Negra, LGBT, periférica e criadora de conteúdo!

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Conhecido por ser uma plataforma mais democrática do que a mídia tradicional, o Youtube tem cada vez mais servido como espaço para influenciadores compartilharem suas vivências, especialmente aqueles que fazem partes de minorias que são pouco representadas na televisão e nos filmes. Na teoria, essa representatividade aconteceria de forma simples, afinal qualquer um pode ligar uma câmera ou um celular, gravar um vídeo e fazer upload em um canal sem precisar pagar nada e nem ser contratado por uma emissora de tv. Entretanto, na prática sabemos que é muito mais complicado do que isso: o site está tornando cada vez mais difícil que criadores de conteúdo lgbt e feminista, por exemplo, consigam monetizar seus vídeos, fazendo com que eles dependam do engajamento do seu público e de contratos com marcas para poderem transformar o conteúdo em uma profissão. Assim, os canais que acabam ganhando maior destaque são geralmente aqueles feitos por pessoas brancas de classe média alta, que não fogem tanto do padrão da mídia tradicional, pois é preciso tempo e dinheiro para investir na criação de conteúdo. E é nesse cenário que criadoras de conteúdo como Luci Gonçalves demonstram a importância de termos mais representatividade!

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Luci, que tem 20 anos e 130 mil inscritos, começou o seu canal para falar sobre cabelo e transição capilar, mas hoje utiliza ele para mostrar também a sua realidade, como mulher negra, periférica, bissexual e feminista, abordando assuntos diversos, que vão desde relacionamentos e sexo, a autoestima, empoderamento feminino e estilo. Tudo isso é feito com muito humor e uma personalidade contagiante que mostram quem ela realmente é. Em entrevista concedida, conversamos um pouco sobre a importância do seu conteúdo, as mudanças que ela pode causar na vida de outras mulheres e como tem sido toda a sua experiência dentro do Youtube:

DN – Eu conheci o seu canal esse mês através dos vídeos do Mulheres Na Comédia que foram feitos pelo canal DRelacionamentos em parceria com várias mulheres incríveis, e desde então já assisti a vários vídeos seus. Como foi participar desse projeto?

Foi incrível e superou todas as minhas expectativas. Foi um dia cheio de descobertas, conheci várias youtubers que eu admirava há anos, e ainda pude gravar com algumas. A nossa vibe bateu muito certo, a energia fluiu perfeitamente e ficou um dos vídeos mais engraçados do meu canal.

DN – Eu vi que você começou o canal mais para falar de cabelo e beleza, da onde surgiu a ideia de começar a gravar? Você já tinha alguma experiência com Youtube antes?

Comecei depois dos pedidos de alguns amigos e amigas próximos, quando entrei na transição e acabei descobrindo muita coisa de cabelo, como cuidar de forma natural, nos blogs gringos. Eram métodos novos pra gente, eu entendia um pouquinho de inglês e conseguia traduzir, ia testando em casa com os meus produtos baratinhos e explicava para eles todos os dias na escola. Até que ficou cansativo repetir sempre as mesmas coisas e uma amiga me deu a ideia de criar um blog, uma página, qualquer coisa, pra escrever e mandar pra quem perguntasse. Assim nasceu o blog.

Depois tive a necessidade de falar sobre racismo e feminismo, coisas que fui descobrindo e entendendo mais depois da transição. Eu só precisava falar tudo que estava engasgado. Aí peguei o celular do meu ex marido e falei. Não entendia nada de youtube, nem produção de vídeo. Tinha uma mínima noção de fotografia, mas só, tanto que o primeiro vídeo fiz na vertical.

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DN – Hoje em dia no seu canal você fala muito sobre sexualidade, relacionamentos, autoestima e comportamento no geral, da onde veio a ideia de mudar um pouco o assunto dos vídeos?

Com 1 ano e pouco de canal fui percebendo que eu era mais que cabelo, mais que minhas tranças e descolorações. Percebi que o meu dia a dia, as minhas vivências e experiências eram muito diferentes das outras criadoras de conteúdo. Sempre quis falar sobre as coisas que descobria, tanto nos meus livros ou para as pessoas. Eu nunca tive inspiração no meio de youtube porque não me enxergava em lugar nenhum. Tive crises porque não aguentava mais só falar de cabelo e maquiagem, eu não era só aquilo. Também queria que as meninas que estavam vindo soubessem que era possível ter um canal sendo pobre, como eu. Cansei de tentar ter um cenário que não tinha a ver comigo, abafar a todo custo o som da vila onde moro, das crianças brincando, ou dos tiros. Queria ser eu 100%. Aí nos próprios tutoriais fui inserindo mais minha realidade, e aos poucos vi que iam se identificando. Depois fui criando quadros onde eu pudesse mostrar como fazer algo, mas completamente do meu jeito, como na primeira ideia de criar um blog, e as pessoas começaram a amar e acompanhar mais fielmente o canal.

DN – Você se inspira em alguma Youtuber?

Não. Ainda acho um pouco estranho responder essa pergunta dessa forma, mas não me inspiro em ninguém, apenas nas mulheres reais da minha vida offline, minhas amigas, tias, mães. Mulheres pretas, favelas… na nossa vivência.

DN – Além dos collabs maravilhosos que você já fez, com quais outros youtubers você gostaria de gravar?

Existem tantos! Xan Ravelli, Ju Giampaoli, Alexandra Gurguel, e outras amigas queridas.

DN – Ano passado você participou do Youtube Next Up junto com outros canais, como foi essa experiência? O que você aprendeu com ela?

Foi uma das maiores experiências da minha vida! Não acreditei que aquilo estava acontecendo até estar dentro do hotel com os outros criadores. Conheci pessoas que eu já acompanhava e criamos uma amizade, um laço forte na vida offline. Além de aprender todo o conteúdo e ganhar os equipamentos, eu pude conhecer pessoas de todo o Brasil, com histórias incríveis e seus próprios ensinamentos.

Em alguns momentos foi realmente emocionante estar lá com eles. Os melhores momentos foram nos quartos do hotel, quando sentávamos e conversávamos sobre tudo, quando a gente gravava junto, ou na van a caminho do Youtube Space rindo até a barriga doer. Aprendi muita coisa, pude mostrar muita coisa da minha cidade pra quem vinha de fora e da minha vivência também. Sem falar do reconhecimento, de ser escolhida entre tantos canais maravilhosos e ouvir tantos elogios sobre meu trabalho na internet. Foi muito enriquecedor.

DN – Qual é o processo de criação dos seus vídeos? Como você pensa nos temas que vai abordar em cada um?

Eu observo cada pedacinho do meu dia a dia. Minha rotina e minhas histórias me ajudam muito a pensar em vídeos novos. Saio de casa, converso com as pessoas, dou um volta na minha quebrada ou na favela das amigas. Olho paisagens, construções. Escuto e sempre anoto tudo. As pessoas ao meu redor sempre aparecem com temas incríveis também, coisas que gostariam de ver em algum lugar e nunca viram. Chego em casa e desenrolo o assunto, monto um formato legal, escrevo algumas coisas que servem de roteiro, acordo num dia bom, sento em frente a câmera e gravo sem parar.

DN – Qual você acha que é a sua importância, como uma mulher negra e bissexual da periferia no Youtube? Como você acredita que a sua experiência pode ajudar outras meninas?

Por causa da minha baixa autoestima intelectual, eu ainda estou no processo de entender minha importância nesse meio e sempre sou muito sincera sobre isso. Escutei a vida toda que minha história não era importante, que não chegaria em lugar nenhum sendo como sou, com o estudo que tenho. Então ainda é uma caminhada entender o que isso tudo significa. Mas as pessoas que me acompanham e amigas me lembram todos os dias como é lindo ver alguém lá representando elas e tudo que nós vivemos. Há poucas mulheres pretas, periféricas/faveladas, lgbt… Ser uma delas e representar tantas meninas no youtube é uma responsabilidade que pretendo levar por muito tempo, e uma honra enorme.

DN – Como tem sido o feedback do canal? Quais são os comentários mais legais que você geralmente recebe? Você já teve que lidar com haters?

É emocionante ler histórias tão parecidas com a minha, saber que tenho tanto em comum com essas meninas, e que elas entendem que eu sou uma jovem mulher descobrindo o mundo como elas. Saber que inspiro, as vezes pessoas muito mais velhas que eu, me deixa doida de felicidade! Ver muitas pessoas também fora da minha bolha social, assistindo aos vídeos e aprendendo sobre vivências alheias também me deixa bem feliz.

Sempre há haters, contas fakes, pessoas que se acham donas da razão e não tem um pingo de empatia pelo próximo. Isso existe desde o começo do canal, falo sobre temas sensíveis pra algumas pessoas e polêmicos pra outras. Depois de tanto tempo aprendi que é melhor ignorar a maioria, principalmente quando te fere, e focar em debates saudáveis com pessoas empáticas.

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DN – Quando você percebeu que era uma mulher feminista? Você acredita que a internet está ajudando as meninas hoje em dia a conhecerem esse movimento mais cedo?

Quando entrei em transição acabei descobrindo muita coisa sobre movimentos, ativismo, etc. Assim que parei pra ler a primeira definição que achei sobre feminismo na internet, com os meus 16 anos, eu entendi que sempre fui feminista. Claro que durante a vida reproduzi muito machismo, até porque assim que somos ensinadas, mas sempre tive ideais muito feministas desde criança. Acredito que a internet ajuda sim a essas meninas, mas acaba levando informação demais, muitas mentiras também, e assim se perde, fazendo as pessoas acreditarem em coisas que não existem. Sempre digo que a internet me ajudou muito na teoria, mas que na prática aprendi o que é feminismo com mulheres da minha vida offline.

Por: Leticia Graton – Delirium Nerd: http://deliriumnerd.com/2018/03/01/youtube-luci-goncalves/

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