A mulher que não goza: a marginalização do prazer feminino num breve debate historiográfico

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Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

seguro de vida para casais homoafetivos

Se quem pensa, existe.
Quem goza, consiste!

Vamos fazer as contas, que é bem mais honesto do que fazer de conta que as coisas vão bem. De acordo com pesquisas: 56% das mulheres heterossexuais estão insatisfeitas sexualmente. E mais: apenas 22% conseguem chegar ao orgasmo durante a relação sexual. As outras 78% não chegam. Sublinhem, enfatizem, salientem e nunca se esqueçam que SETENTA E OITO POR CENTO DAS MULHERES heterossexuais não GOZAM sempre, em pleno século XXI. Diante dessa informação, podemos considerar que a sociedade vive em harmonia de gêneros ?

Talvez você se questione o quanto esta informação é relevante, diante de tantos outros problemas sociais e políticos que norteiam o cotidiano da mulher brasileira. E respeito a opinião de quem acredita que o orgasmo feminino é uma pauta menos urgente do que questões como: aborto, feminicídio, relações abusivas, exploração proletária, estupro e assédios diários. No entanto, se observamos com um olhar antropológico e psicológico, nota-se que a marginalização do prazer foi, sobretudo, uma tática de opressão e submissão. E digo mais, esta construção social de que mulher gozando é pauta menos essencial continua firme e forte, resistindo a séculos de afirmações errôneas sobre o assunto que se propagaram com força de evidências. Pressupostos do tipo: “Mas, é difícil mulher gozar mesmo”; “Eu não gozo sempre, mas pra que né?”; “Ela é louca, ninfomaniaca. Não quer parar nunca”. Ou coisas do tipo: “Ele é homem, né?” numa vã tentativa de explicar uma maior libido do gênero masculino no que se refere a desejos. Veja bem, afirmações como essas não passam de mitos. Não tem nenhuma comprovação cientifica, anatômica ou biológica que justifique ou comprove uma maior libido sexual do homem. Ou seja, muitas mulheres gostam de sexo, e gostam muito. Gosta de ser chupada, gosta de ter prazer. Fato é, estas discursivas existem para justificar uma maior liberdade sexual masculina e oprimir o prazer feminino. A mulher que sabe o que quer na cama assusta o macho-alfa que, diante dos números citados acima, precisa de uma boa aula de iniciação clitoriana.

Modelo do clitóris produzido por uma impressora 3D.

Objetiva-se no entanto, salientar que conceitos e significações modificam-se no tempo e no espaço ao qual estão inseridos, a isto, dar-se o nome de contexto histórico. Ou seja, o que hoje tem um valor, pode não corresponder a valores passados. Entretanto, paradigmas podem ultrapassar as transformações do tempo e manter seus resquícios e consequências enraizados na mentalidade do individuo. Deste modo, quando portugueses desceram em terras tupiniquins trouxeram, na bagagem das caravelas, uma carga de valores culturais e um modelo de vida. Muito moralista devido as normas cristãs que se chocaram com os costumes antagônicos dos indígenas. Tanto quanto se impressionaram com a nudez e a beleza das índias. Mesmo com todo o pudor sexual implícito nos valores portugueses, devido a forte influencia da igreja que criticava desejos eróticos por significar um desvio e um pecado, os portugueses não se fizeram de rogados diante das indígena. A mulher inspira preocupação aos religiosos, assim, não foram poucos os que fustigaram o corpo feminino, associando-o a um instrumento do pecado e das formas malignas, capaz de levar o homem a pecar através da tentação. A mulher era perigosa por sua beleza e sexualidade. Pecadora desde que comeu o fruto proibido, caiu na tentação da serpente e levou o homem a pecar, como continuou seduzindo-o, levando-o a perdição física, mental e espiritual.

“Cor de buriti são os signos sedutores dessa fêmea que convida o paladar a deglutição, ao
tato. São elas verdadeiras presas do desejo masculino, mulheres-caca, que o homem persegue e devora sexualmente”(Priori, p.30). O erotismo e o desejo eram fortemente combatidos pela igreja, que tinha uma forte influência sobre a corte Portuguesa. Deste modo, para justificar a fraqueza da carne masculina a mulher foi culpabilizada e considerada como uma fonte de perdição para a saúde mental e espiritual dos homens.

A vagina era descrita como um órgão de reprodução, criada para a santa maternidade, mas, por outro lado era julgada como a porta para o inferno e a entrada do diabo, pela qual os luxuriosos gulosos de seus mais ardentes e libidinosos desejos descem ao inferno. Prazer? Coisa de puta, de possuídas ou histéricas. Que fosse a igreja, a filosofia, a moralidade, a ciência, a mulher era um mal na terra, um ninho de pecados, a tentação. Seu corpo era demonizado e considerado impuro. Sua fisiologia, o fluxo menstrual, os odores, os líquidos amnióticos, as secreções, tudo significava sua impureza. Então, compreende-se que a construção ideológica da mulher que não goza, tinha por objetivo a preservação da tradicionalidade da família. Por isso a sexualidade da mulher foi reprimida, através de apelos de moral sobretudo religiosa.

Com relação ao orgasmo a verdade é ainda mais alarmante, pois pouco se conhecia no período sobre a anatomia da mulher, como pouco se conhece até hoje. Em palavras duras e espinhosas, os caras não sabiam como fazer uma mulher gozar — e diante dos números citados acima, ainda não sabem. E a mulher prosseguia reprimindo seus desejos, sobre a dura ameaça de ser acusada de histérica ou ninfomaníaca, a verdade é que o homem sempre colocou a mulher como “Louca” quando algo fugia do seu poder, do seu controle. Todos esses conceitos foram embasados cientificamente e filosoficamente por donos do saber como médicos, advogados e padres.

Se neste artigo cabe um questionamento de viés foucaultiano, vale refletir acerca das razões que levam a construção desta problemática no que se refere ao orgasmo da mulher. Como algo de natureza tão simplista traz em sua significações tanto teóricas quanto de vivências, tais tabus e incômodos silenciosos? O homem cria um orgasmo feminino imaginário para satisfazer seu ego masculino e fálico. a mulher se rende ao coito e finge um orgasmo que se nunca sentiu, só o teve poucas vezes, tudo para continuar satisfazendo a honra de seu homem e da sociedade em que vive, onde mulher sexualmente livre e exigente é ninfomaníaca ou desvalorizada. E a resposta é resumida em duas palavras: procriação e multiplicação.

Dando um passo arriscado e talvez totalmente equivocado dentro da escrita histórica, me darei o direito humano de tratar de hipóteses. Concordando sinceramente com os pressupostos de Beavouir, acerca de uma extinção da mulher na ausência da funcionalidade de seu útero. Tudo isso, claro, é apenas uma observação hipotética, sem provas, para alertar para as razões que levam o orgasmo da mulher a tornar-se pauta quase nunca discutida. O clitóris, não tem função alguma no ato de perpetuação da espécie. Enquanto que a ejaculação do homem tem função direta no ato de procriação. De acordo com a autora, o estado de submissão da mulher está diretamente ligado ao processo de criação de propriedade privada. Onde ter filhos, torna-se um modo de perpetuar o acúmulo de terras, transformando o casamento numa negociação, ao invés de um ato incentivado por laços sentimentais. O matrimônio pouco tinha haver com amor, era um acordo entre famílias, deste modo, deduz-se também que afinidades sexuais também não eram item essencial na escolha do parceiro. Assim sendo, o marido deitava-se com a esposa para gerar
herdeiros, enquanto estuprava escravas e procurava prostitutas para usufruir do seus privilégios patriarcais.

O valor da mulher era expresso por quão recatada esta fosse. Num período onde reproduzir era o objetivo principal, os únicos que tinha autorização para olhar para a sexualidade eram os médicos, e diga-se de passagem que existia certa fascinação pelo tema, eles exaltavam o orgasmo como algo que aproximava o homem da perfeição de Deus. “Comentava-se sobre médicos que aliviavam, não sem prazer, suas pacientes histéricas, conduzindo-aa orgasmos repetidos graças a carícias. Isso até que o apetite da paciente pelo remédio começasse a escandalizar a família.” (Priore, 78). No entanto, os doutores jamais se distanciavam do objetivo principal, para tanto perseguiam qualquer desvio das relações conjugais: masturbação, histeria, ninfomania, coito interrompido, oral, sexo anal, manobras sexuais, assim como amores inúteis e esposas estéreis deviam ser evitadas. Ou seja, tudo que não resultasse no coito justificado para concepção era errado e deveria ser combatido. Para isso os casais juravam perante o padre fidelidade eterna e salientava-se aos esposos que deviam economizar seu líquido espermático, para isso era preciso ser rápido.

A saúde dos filhos estava intimamente ligada a economia do ato. Para tanto, era essencial se preocupar com a iniciação da mulher. Esta não devia conhecer muito sobre o assunto. A mulher obedecia melhor e esse seria provavelmente seu único contato sexual. O curioso é que os médicos deste período acreditavam na capacidade que a mulher tinha para gozar, ao mesmo tempo que combatiam isso por um medo evidente da mulher insaciável, dado que, o prazer da mulher era tido como exagerado e podia leva-la a perigosos excessos, assim como seu orgasmo incentivava interpretações contraditórias. Diante da moralidade religiosa implícita ao período, determinadas coisas não caiam bem a uma “mulher de respeito”. Mulher, era sobretudo sinônimo de pudor. Deste modo, os médicos recusavam qualquer tipo de iniciativa, manifestações e até mesmo desejos femininos. Ao esposo cabia controlar a volúpia da esposa, sem esse controle as mulheres podiam tornar-se histéricas e ninfomaníacas.

As questões envolvendo o gozo da mulher pioraram quando descobriu-se a espontaneidade da ovulação.
“A espontaneidade da ovulação tornava inútil o orgasmo da mulher. Só a ejaculação masculina era indispensável. Assim, durante muito tempo os homens puderam ignorar as reações das parceiras” (Priore). O orgasmo feminino tem um protagonista, o nome dele é clitóris. Qual sua função no processo de reprodução? Nenhuma. Ele existe único e exclusivamente para dar prazer a mulher. A existência deste órgão — pequeno por fora e gigante por dentro — derruba a teoria do sexo apenas para procriação. Afinal, biologicamente ou religiosamente falando, qual a razão de sua existência se o objetivo primordial do sexo é o “crescei-vos e multiplicai-vos”? Nem criacionistas, tampouco evolucionistas conseguiram enquadrar a
existência do clitóris em seus paradigmas. Exatamente por essa razão, nossa sociedade patriarcalista e falocentrica o escondeu e marginalizou por tanto tempo.

O clitóris e sua função só foram descobertos em 1559, descrito como a fonte de prazer feminino. No entanto, sua descoberta pouco mudou acerca da visão do papel da mulher na sexualidade. Então, os donos do saber (poder/homens) criaram uma explicação para a existência dele, descrevendo-o como um pênis em miniatura. Esta falácia — que nada tem de inovadora — remete ao discurso de homens como Aristoteles, Balzac ou Freud, embasadores de uma natural incapacidade da mulher, teorizavam que a mulher é um homem que não deu certo. Assim sendo, a vagina era um pênis interior; o útero uma bolsa escrotal; os ovários testiculos. Falocentrico? sim ou claro? “Elas o possuíam no interior do corpo e não no exterior” (Galena). Insistiam na função reprodutora, excluindo completamente o prazer e esquecendo completamente o clitóris.

Não tinha importância alguma se a mulher gozava. O foco era procriar. No ato sexual a mulher era passiva e sua missão era a maternidade. No século XVI, os médicos pressupunham que o desejo sexual era negativo “O prazer feminino era considerado tão maldito, que, no dia do julgamento final, as mulheres ressuscitariam como homens” (Santo Agostinho). Com esse tipo de discursiva, os donos do saber (poder/homens) entre eles padres, médicos, filósofos condenaram as mulheres a ignorarem seu prazer durante séculos. Por sua vez, as mulheres não reclamavam, compravam o discurso de que a vagina servia apenas como órgão reprodutor. Sexo era obrigação matrimonial e também espiritual ligada exclusivamente a maternidade. Qualquer demonstração de interesse em sexo tinha impacto na moralidade da mulher. Para tanto era preciso manter o pudor e destituir-se de valores eróticos. Tudo para não correr o risco de ser considerada histérica, estéril, ninfomaníaca ou lésbica.

Normas aprisionavam o corpo da mulher. As mulheres tornavam-se beatas, pudicas e azedas, cumpridoras de deveres. Os homens egoístas não demonstravam caricias afetivo-eróticas. O cristianismo acentuava a divisão de papeis. E para a igreja, a mulher era a reprodutora, ficava imposto o papel de fragilidade, beleza, maternidade e submissão. Acreditava-se que o instinto maternal anulava o desejo sexual, ou seja, mulher que sentisse prazer fugia a norma imposta. O marido tinha necessidade sexuais. E para isso era essencial se importar com a iniciação da mulher. Em outras palavras, ela não devia conhecer muito sobre sexo, pois, a sua submissão era maior se quem a inicia-se fosse seu único contato sexual. Controlado o prazer, o sexo virava debito conjugal e obrigatório. Era proibido nega-lo. E se tocar? Em hipótese alguma, as moças eram ameaçadas de ficarem feias, corcundas, doentes.

A ideia da mulher sentindo prazer sem o homem parecia absolutamente intolerável. Apenas em 1940, com a obra “Revolução Sexual” de Reich, a vergonha e o silêncio acerca do prazer da mulher e de como alcançá-lo foi retirado. Mas, desde que o homem a ensinasse e leva-se a esposa a isso. No entanto, essa nova visão gerou uma problemática, o homem seria capaz de fazer a mulher gozar? Nos anos 60 e 70 começam a ocorrer paradigmas. Era o inicio de uma ideia de prazer para todos, sem penalizar as mulheres por manifestar seu interesse sexual. No entanto, a discursiva de pudor mantinha-se nas entrelinhas do cotidiano social. A revolução verdadeira ocorre a partir da pílula, uma vez que, antes disto, o prazer estava ligado ao medo de ter uma gravidez indesejada. Nos anos 60 se via o slogan: “Direito ao prazer”; com forte oposição a moralidade cristã.

A ideia da mulher como única dona do seu corpo e do seu prazer ultrapassa as transformações do tempo e ainda se demonstra como uma pauta essencialmente discutível. O tradicionalismo mantém-se enraizado nas entrelinhas, moldando mulheres pudicas, sem auto-conhecimento e que fingem prazer para agradar ao sexo masculino. Enquanto isso, os homens pouco se importam com o prazer da parceira ou se mantém às cegas achando que estão arrasando. Tudo tem uma bagagem histórica.

Via de regra! Se não sabe brincar, não desce para o clitóris.

Referências

CARIDADE, A. Abordagem corporal em terapia sexual. Recife, maio 1995. /Mimeografado. 06. FUCS, B.G. Homem-mulher: encontros e desencontros. Crescimento da sexualidade através da relação. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992.

DOWLING, Colette. Complexo de Cinderela. 43. ed. Tradução de Amarylis Eugênia F. Miazzi.
São Paulo: Melhoramentos, 1986.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

PESAVENTO, S. J. História & História Cultural. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008, p. 15.

PRIORE, M. del. Entrelinhas, TV Cultura, São Paulo, 30 maio 2011. Disponível em:

PRIORE, M. del. O príncipe maldito: traição e loucura na família imperial. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2007; Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

Autora

Tamires Marinho é apaixonada pelo comportamento humano e pelos conhecimentos empíricos da vida. Clarice Lispector é meu lado escritora, Darcy Ribeiro me faz socióloga, Beauvoir é minha militância. Escritora amadora, psicóloga mal formada e historiadora em desenvolvimento. Me orgulho, defendo tudo que sou e acima de tudo: Sou mulher!

Créditos da imagem: Modelo do clitóris produzido por uma impressora 3D. Foto de Odille Fillod/Nexo.

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